Por um RH mais diverso

Por um RH mais diverso: conheça a analista de recrutamento e seleção Larissa de Freitas.

Larissa de Freitas Araújo, 30 anos, fala um pouco para nós da sua jornada profissional no RH. Forte e assertiva em sua comunicação, Larissa expressa através da sua própria narrativa como foi natural para ela seguir aquilo que acredita e ama. Sempre com voz ativa para lutar por seus direitos e o de todos. Inspiradora e verdadeira!

Nesta conversa, ela conta um pouco do começo da sua jornada, seus desafios, as problemáticas e estereótipos acerca do RH. O machismo que enfrentou e enfrenta na área e como lidar com empresas que não pensam inclusão de maneira empática e humanizada. Inclusive, dá dicas de como ir bem no processo seletivo. Conheça seu trabalho e sua força como mulher preta que busca equidade e inclusão social.

“Diversidade e Inclusão para mim, é inegociável. Onde não tem, eu não estou.”

Como foi o início da sua carreira, a escolha de uma profissão e os primeiros passos?

Eu sou formada em Administração de Empresas com ênfase em Gestão de Pessoas. A parte do “Administração de Empresas” não foi escolhida por amor, eu tinha pelo menos três outros cursos em mente, como por exemplo psicologia. Mas infelizmente é uma espécie de convenção social o indivíduo se formar no ensino médio e partir direto para a faculdade, desconsiderando fatores de amadurecimento, psicológicos e sociais.

No meu caso eu ainda não estava preparada, mas toda a pressão no meu meio social me fez escolher sem estar preparada, e “na dúvida, faça administração”. Um erro pensar dessa forma, mas no meio do curso pude escolher um caminho a seguir, e como eu amava as disciplinas de gestão de pessoas, decidi me formar com essa ênfase.

Tive a oportunidade de me inserir no mundo do RH em abril de 2011, em um estágio na área de treinamento e desenvolvimento da IBM. O contrato acabou em Dezembro de 2012 com o término da faculdade e foi um período de muito aprendizado. Tive a certeza que em uma próxima oportunidade queria continuar ou nessa mesma área ou em recrutamento e seleção, que sempre foi meu grande amor.

Para você como mulher dentro do RH, como foi o processo de ascensão profissional? E como é a questão de gênero dentro da área?

O RH na minha opinião é uma área subestimada e as empresas dão menos valor do que deveriam, tanto para a área em si como para profissionais. Hoje isso está mudando bastante, mas há alguns anos atrás era muito mais complicado.

E aí entra um bom ponto: a maioria das pessoas que trabalham em RH são mulheres. RH é visto como coisa de “mulherzinha”. É uma área que sofre bastante preconceito e é hostilizada (algumas vezes com muita razão, eu reconheço). Os salários de quem trabalha em RH é muito baixo em relação às outras áreas e profissões. E aqui a gente já pode chegar em algumas conexões pensando no machismo do mercado de trabalho. Área composta por mulher é desvalorizada.

E tem a questão de machismo misturado com outros preconceitos pelos próprios candidatos homens em relação a mim, por exemplo. Quantas e quantas vezes já fui olhada dos pés a cabeça e senti a energia do “é você que vai me entrevistar?”. Quantas vezes homens de cargos altos já insinuaram que eu não estava entendendo o que eles estavam falando?

Eu construí a maior parte da minha carreira dentro de uma única empresa de 2014 até 2019. Foram duas promoções, mas nenhuma delas foi por iniciativa pura do “negócio”. Eu e minhas líderes tivemos que brigar muito por isso, porque para o negócio é mais vantajoso uma pessoa com salário de assistente ou de analista júnior fazer atividades de analista pleno.

Tenho certeza que eu só cheguei no nível de carreira pleno porque a empresa estava passando por um processo que não tinham outra saída se não me promover. Tanto eu como as pessoas que eram responsáveis pelo meu desenvolvimento sabíamos que o meu trabalho era muito bom e merecia ser reconhecido! Isso é uma realidade de mercado e tenho a impressão que piora dentro de empresas multinacionais burocráticas. Além das equipes serem grandes, a competição é acirrada, o dinheiro separado para o RH é curto e a meritocracia é muitas vezes uma ilusão.

Eu amo o que eu faço, e sou muito feliz profissionalmente falando, mas eu ainda não estou no patamar que eu sei que mereço. O mercado para uma mulher que não é branca, que está fora dos padrões, que é lésbica e não tem inglês fluente não é favorável… Ainda mais dentro de um cenário cada vez maior de precarização do trabalho.

Como foi construir uma carreira que dialogasse com seus ideais pessoais? Como chegou até um RH inclusivo e que pensasse na diversidade?

Trabalhar em RH é complicado, pois, a gente vê muita injustiça que não tem como driblar. Ao contrário do que muitas pessoas pessoas pensam, muitas regras não é o RH quem cria, na maioria das vezes a gente está seguindo direcionamento de um CEO, de diretores de outras áreas, por exemplo. É bem complexo e causa sentimentos bem ambíguos.

Mas eu posso dizer que pelo menos tive sorte porque logo que comecei a trabalhar com Recrutamento e Seleção em 2016. Eu já pude atuar com diversidade e inclusão (um trabalho que não é nada fácil por diversos motivos) então ajudou a equilibrar a balança. Na época era com jovens em situação de vulnerabilidade. A empresa também tinha metas de contratação de mulheres e programas voltados para outros grupos de minorias. Então eu podia fazer o meu trabalho de forma muito atrelada aos meus ideais. Eu atingia as minhas metas não porque eu era obrigada, mas porque era natural de mim querer ser uma ponte para abrir portas para pessoas que não tem oportunidades!

Fale um pouco sobre seu atual cargo? Como analista de recrutamento e seleção qual o seu maior desafio?

Hoje eu presto serviços como Analista de Recrutamento e Seleção para uma consultoria de Inclusão e Diversidade. A equipe de Recrutamento e Seleção trabalha apenas com vagas exclusivas para Pessoas com Deficiência.

Dentro da equipe, eu sou mais focada em atender projetos e já pude atuar com várias empresas super importantes. Meu trabalho consiste em encontrar as pessoas no mercado e indicá-las para os clientes, fazendo todo um trabalho de hunting e entrevistas, e sempre prezando por um atendimento consultivo. É um trabalho que eu sou extremamente apaixonada e faço parte de uma equipe maravilhosa!

São muito os desafios da profissão, mas buscando focar aqui em diversidade e inclusão, o mais difícil é lidar com gestores e empresa que não entendem que para um ambiente inclusivo, é preciso flexibilizar alguns pontos na busca de candidatos. É muito difícil fazer vagas afirmativas (exclusivas para determinados grupos) e fazer com que a gestão da posição flexibilize questões de experiência e formação, por exemplo. E nesse processo a gente acaba vendo pessoas simplesmente maravilhosas tendo as portas fechadas.

Como você estruturou seu posicionamento profissional para se destacar na área de inclusão e diversidade?

Eu sempre falei sobre isso, sempre briguei por isso, a todo momento deixei muito claro o meu posicionamento seja dentro ou fora da empresa. Já passei poucas e boas defendendo diversidade e inclusão, inclusive já tive gestão de vaga que achava que eu exagerava.

A maior felicidade da minha vida não é ser reconhecida por pessoas da equipe, mas sim por pessoas que já passaram por processos seletivos comigo. Tenho gente que pude conhecer em 2016 que até hoje tem contato comigo e reconhece o meu trabalho nesse sentido. Para mim não tem preço e é o que me dá a certeza de que eu estou no caminho certo.

Como funciona o processo de inclusão, na prática?

Pensando em recrutamento e seleção o que existe é: será que o caminho para uma pessoa de um grupo minorizado se qualifica para ocupar posições com bons salários, ou, por exemplo, posições de liderança é fácil?

Será que a gestão está preparada para flexibilizar alguns pontos no perfil da vaga para promover a diversidade?

Será que as empresas estão fazendo um trabalho de diversidade e inclusão real e estão tentando trazer pessoas de grupos minorizados para todos os níveis de carreira?

Será que as empresas estudam as especificidades de mercado para os diferentes grupos para entender como atingir as pessoas e como viabilizar a entrada delas, por exemplo?

Será que as empresas estão dispostas a disponibilizar tempo para procurar as pessoas? Porque trabalhar com Inclusão e Diversidade não é um processo rápido.

Se a resposta for não para essas e para muitas outras perguntas, infelizmente pessoas de grupos minorizados terão muitas barreiras para acessarem cargos com bons salários, cargos mais altos e que proporcionem desenvolvimento de carreira.

Para as empresas, é muito mais fácil cumprir metas e cumprir cota dando “oportunidades” somente para as vagas extremamente operacionais e com nível de carreira baixo, por exemplo.

Quais avanços precisam ser explorados na sua área?

Vejo que o RH avançou muito e está se tornando cada vez mais humanizado. Ainda há muitas falhas, mas algo que me incomoda muito se tratando de recrutamento e seleção é que o processo de entrevista ainda é muito robotizado, com perguntas péssimas e preconceituosas que só aumentam os vieses para a contratação.

Qual seria sua dica para quem está a procura de emprego e quer se destacar no processo seletivo?

Currículo: apresentável mesmo que seja o modelinho mais simples possível. Ele deve ser super completo, porém objetivo. Tem vários modelos na internet.

Mantenha todos os dados de contato atualizados, assim como os currículos das plataformas de emprego.

E sobre as plataformas de emprego: não deixe NUNCA de preencher nenhum campo que se aplique a você, isso vai facilitar você a ser achado.

Entrevista: mesmo que você não tenha experiência de trabalho ou experiência naquela área em si, tente encontrar pontos na sua trajetória profissional, pessoal, escolar ou acadêmica que você acha que combine com aquela vaga, mesmo que seja algo pequeno. Levante isso na entrevista caso encontre espaço. Demonstre entusiasmo, mas sem forçar. Seja você mesmo, não minta nas experiências porque existem técnicas de entrevistas que ajudam a detectar contradições.

O nervosismo é normal e geralmente durante a entrevista ele passa! Uma ideia legal é simular uma entrevista com o espelho ou com alguém que você se sinta à vontade, vai te ajudar a repassar as suas informações e se perceber.

Estude o seu currículo, tenha segurança de quem você é e do que você quer. Gosto de dizer que “ninguém sabe falar melhor de você do que você mesmo” por mais que as vezes pareça muito difícil. Não desista!

2 respostas
  1. ToiniVeitonen
    ToiniVeitonen says:

    Em primeiro lugar, as sombras são o reflexo da nossa existência no espaço. Depois, as nossas sombras sobrepõem-se, entrelaçam-se, comunicam. Neste projecto, as sombras são transformadas em subjectivas através de https://ladydahmer.com/ representações dos nossos estados mentais. Em vez de serem distorcidas pela fonte de luz, o público será capaz de controlar as suas próprias sombras, usando os auscultadores que recolhem dados EEG a partir delas e, consequentemente, formando sombras falsas projectadas no solo ao seu lado.

    Responder

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.